A empresa de 2050 não cabe mais em um CNPJ
Autor: Sing Comunicação
Reflexões sobre a palestra de Lala Deheinzelin no SP2B e as transformações que redes colaborativas, IA e novos modelos econômicos trazem para as empresas.

Tenho fascínio pela atuação de futuristas, porque acho incrível esse talento de analisar milhares de dados, cenários hipotéticos e, a partir disso, desenhar cenários e previsões.
A programação do SP2B incluía a palestra de Lala Deheinzelin, futurista e pioneira no setor da economia criativa como estratégia de desenvolvimento e sustentabilidade, com um interessante título: "Empresa de 2050: do CNPJ à consciência coletiva algorítmica."
Já que mencionei que gosto de cenários, vale dizer como ela constrói os dela. A leitura de futuros de Lala parte da sobreposição de sete quadros de análise de ciclos: Cliodinâmica (Turchin), Commons Transition (Bauwens), Limites do Crescimento (Meadows), ciclos econômicos de Kondratiev, Lei da Sustentabilidade dos Sistemas (Lietaer), ciclos geracionais (Strauss e Howe) e padrão de redes (David de Ugarte). Quando esses ciclos coincidem, a turbulência aumenta. A projeção dela é que a turbulência iniciada no ano passado siga em 2026, com mudanças radicais e rápidas a partir de 2027. A recomendação é usar a "lente de futurista": olhar acima do ruído, mirar as macroforças e se abrir para o improvável que se torna necessário. "As oportunidades para o Brasil são imensas, a barreira é que não dá mais para fazer o mesmo."
Transição de eixo econômico e político
Não dá para falar de visão de futuro sem passar por economia e geopolítica. Do lado econômico: blockchain, tokens, ativos do mundo real (RWA), contratos inteligentes, moedas digitais nacionais e desdolarização, com transações transfronteiriças em moedas locais, caso do BRICS Pay e das bolsas de grãos e de metais dos BRICS. Do lado político: mudança de eixo depois de 500 anos, com coordenação do Sul Global e liderança chinesa, organizada em multipolaridade, logística integrada, mecanismos financeiros independentes e a combinação de governança global com soberania local.
O exemplo concreto que ela cita é a Nova Rota da Seda, planejada de 2013 a 2049, com mais de 50 países envolvidos e uma universidade criada só para formar os gestores do projeto. Em paralelo, as respostas ocidentais mostram a disputa em curso: o Global Gateway da União Europeia e o corredor econômico Índia, Oriente Médio, Europa.
Onde estão os próximos gigantes
A crise de 2008 produziu os gigantes da tecnologia, que convergem dados, excedentes de infraestrutura e mercados. A crise atual, segundo Lala, produzirá os gigantes do "COO", que conectam e coordenam habilidades, tempo, excedentes e parceiros. Para ela, coordenação é a camada de valor da próxima década.
Trabalho do futuro é coletivo
Cada pessoa, iniciativa ou área tem seu orçamento, embora as necessidades sejam comuns. Compartilhar reduz custo, amplia escala e cria ecossistema colaborativo. Isso demanda tecnologia para transacionar recursos além do dinheiro, como tempo, habilidade e excedente, além de contratos inteligentes para acordos e repartição de benefícios. O modelo de crowd aparece aqui como caminho para transformar quem trabalha em sócio do que produz. Lala resume a virada como a união da IOT, internet das coisas, com a IOP, internet das pessoas.
Coletividade para evitar que 95% das PMEs e startups morram
Na visão dela, a resposta passa por novos desenhos organizacionais coletivos: cooperativas de plataforma, marketplaces e centros de serviços compartilhados, cobrindo infraestrutura, distribuição, comunicação, investimento, precificação e gestão de dados. Vale para empresas e também para as "eupresas", o profissional que atua sozinho.
O papel da IA
A inteligência artificial apareceu na análise de Lala posicionada como tecnologia de percepção e coordenação. A função dela é organizar dados para tomada de decisão, o que exige sistemas integrados de coleta e leitura. Mais do que ferramenta de produtividade individual, a IA passa a operar como o "órgão de percepção" das organizações. "A IA serve para fazer aquilo que nós não conseguimos fazer, processar volume e detectar padrão em escala."
Aplicação para o Brasil
A oportunidade é grande porque o país tem ativos que a nova ordem valoriza: biodiversidade, energia, alimento e capacidade de articulação com o Sul Global. A barreira é operacional. O modelo de empresa isolada, disputando o mesmo mercado com estrutura duplicada, não sobrevive à janela de 2027. Para Lala, a saída é de composição, cada um no que domina, dentro de ecossistemas cooperativos com estrutura compartilhada, porque "sem tech não dá, só com tech também não".
Bom, temos muito o que pensar, bora começar a planejar 2027 e decidir: com quem a Sing precisa se compor nos próximos anos, e o que faz sentido continuar fazendo sozinha.
Por Vania Gracio, Founder e CEO da Sing Comunicação, agência de PR no Brasil, México e Latam.
Sing, agência boutique de comunicação e relações públicas, com atuação no Brasil e na América Latina, especializada em tecnologia, inteligência artificial, assessoria de imprensa, gestão de reputação de marcas e estratégias de mídia para empresas globais.
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